Pintura em palavras: os móbiles de areia de Evaldo Balbino – Regina Coelho



Por Regina Coelho

“É com palavras que faço pinturas.” Assim, sem fazer rodeios, o cronista Evaldo Balbino define seu ofício de escrever e o põe em prática produzindo belos quadros. Exemplo disso pode ser visto e sentido nas 33 crônicas da obra Móbiles de areia (Amirco, 2012) que, chancelado pela Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais, constitui o terceiro livro da Coleção Lageana.

Usando a metalinguagem para justificar paixão e compulsão pela palavra, como no texto que dá nome ao livro e em outros como “Ávida palavra”, “Ao rés-do-chão” e “O pintor” (de onde foram extraídos alguns fragmentos destacados aqui), Evaldo vai muito além disso. Em “Declaração de amor”, ele discorre sobre a descoberta, ainda na infância, dos primeiros livros, ao que parece um encontro definitivo com a leitura, depois com a própria escrita. E afirma categoricamente: “Na contramão das preocupações ecológicas, gosto muito dos papéis. Sou uma traça às avessas”.

Para quem “a vida é leitura do que se pintou e se pinta” e “nossos olhos têm o poder de ressuscitar mortos, de fazer renascerem constantemente passados”, as mãos “retratistas” do autor revivem brincadeiras, travessuras e sobressaltos do menino vindo da roça para morar na cidade com a família. Aliás, o Ribeirão de Santo Antônio (povoado) e Resende Costa são espaços afetivos quase sempre presentes nos textos. E há muito mais. Ganham destaque as cenas prosaicas do cotidiano que retratam pai e mãe na difícil lida de muitos momentos em que a figura materna reina absoluta. “Parecendo antiga, minha mãe era moderna. Dominando e fingindo ser dominada, suas mãos tinham um poder de glória. De domar o marido com carícias e brados” – define o autor agora a figura central daquele núcleo familiar na visão do garoto de antes. Não faltam histórias envolvendo tipos humanos interessantes nem reflexões sobre a morte e, especialmente, sobre Deus em imagens divinamente pintadas pelo poeta/pintor que Evaldo Balbino não deixa de ser. “Deus está é dentro da gente e não fora. Se ele aparece nas nuvens, são nossos olhos que o projetam lá: projetam as nossas próprias almas”. Sem quaisquer retoques, o trecho final de “Estátuas aéreas” é puro encantamento. Assim também o é o estilo corajoso do jovem Evaldo ao produzir, no todo, obra de primeiríssima qualidade.

(Publicado no Jornal das Lajes, Ano IX, número 114, out. de 2012, Resende Costa – MG. p. 3)