A vida palavra ao rés-do-chão: os móbiles de areia de Evaldo Balbino – Elaine Martins



Por Elaine Martins

Móbiles de areia é o livro de estreia do poeta Evaldo Balbino no universo da prosa, mais precisamente no território da crônica. Dos 33 textos que compõem a obra, quatro são inéditos: “O palhaço”, “A esposa esbelta”, “Promessa é dívida” e “Ao rés-do-chão”. Os outros 29 foram publicadas em “Retalhos literários”, coluna assinada pelo autor no Jornal das Lajes desde 2009, e em outras antologias. A seleção e organização desses textos revela uma forte simbologia, cristalizando a presença do sagrado e da memória na sua produção literária.

A crônica de abertura, “Ávida palavra”, constitui-se como um prólogo literário do livro. Revisitando a tradição grega, o autor evoca a palavra, escrita e falada, cantando-a como um rapsodo que se vale da memória, mas não a memória ideal. Esta é contestada porque as palavras, depois de ouvidas e olvidadas, moldadas pelas mãos feito barro e enraizadas no papel, são memórias em potencial e pulsam no autor, para quem “falar é lutar contra a morte”.

Ávido por palavras, Evaldo Balbino verbaliza com maestria sua experiência de ser e de estar no mundo e no tempo. As suas crônicas são tecidas em uma refinada prosa poética, atravessadas pela humildade e permeadas por imagens, lugares da memória e objetos biográficos.

Em “Ode a uma pequena cidade”, o autor traça a rota de seus móbiles de areia apresentando-nos o espaço e um dos personagens do livro. Por meio da geografia desnorteada do menino-adulto, uma pequena cidade, Resende Costa, que não mais existe, mas que resiste e insiste através dos corredores de pedras invencíveis, eterniza-se como num quadro ou num retrato.

O livro nos proporciona a visão desse menino-adulto que, da vasta periferia e do pasto, brincava com a morte. Hoje, ao falar e escrever sobre ela, luta e constrói nuvens-palavras, castelos e pontes de areia. Invadiremos o universo linguístico desse menino que, ainda não as lendo, comia as palavras, que foram ruminadas e transformadas em vício pelo adulto. As sendas da religiosidade, a proteção das mãos da mãe no tear e do pai entre pedras, as ondas de fumaça de Teotônio, os ensinamentos de Raimundo Mundo, as rezas de Chico Cota, os passeios, o caminho da roça, o catar feijão, o armazém, as chinelas, a rua Sete, a rua do Rosário, o pasto do Chicão, a Várzea, as escolas, as formigas, o universo em preto e branco, o medo, os desejos, o deus que está dentro da gente, o tempo implacável, tudo isso, como o pequenino Ribeirão de Santo Antônio, são elementos que confluem para um jardim labiríntico em meio ao barro.

As vozes do eu poético de Moinho, livro de poemas do autor publicado em 2006, parecem, por vezes, ecoar nas palavras desse menino-adulto que agora vive em uma grande cidade, mas, como filho da pedra, não se deixa trair. Ao falar do local, o cronista atinge o universal sem fazer do exercício literário a mera aplicação da teoria. Ao contrário, na faina do ofício poético, em que ler e escrever se misturam, Balbino constrói imagens como que lapidando a linguagem em seu moinho da criação e transformando-a em areia a ser levada pelo vento. Recria experiências próprias e alheias, lugares e histórias em meio a reflexões. Dialoga com os seus poetas, escritores, filósofos e com os leitores, e se expõe, deixando as suas marcas, a sua identidade.

A última crônica, “Ao rés-do-chão”, como um epílogo, revolve a primeira e reforça a essência que permeia todo o livro: a palavra em estado poético, o barro enquanto origem, a humildade, a memória, o medo, o tempo, a morte, o sagrado, os desejos, as multiplicidades dos seres.

O intuito dos cronistas e da crônica, segundo Antonio Candido, “não é o dos escritores que pensam em ‘ficar’, isto é, permanecer na lembrança e na admiração da posteridade; e a sua perspectiva não é a dos que escrevem do alto da montanha, mas do simples rés-do-chão”. Por isso mesmo, de modo quase imperceptível, transformam a literatura em algo que toca a vida de cada um, e “verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava, talvez como prêmio por ser tão despretensiosa, insinuante e reveladora”. Assim são Evaldo Balbino e as suas crônicas, a sua vida palavra, os seus móbiles de areia.

(Prefácio In: Móbiles de areia. Resende Costa: AMIRCO, 2012. p. 7-9)