Memória e ruína na estreia poética de Evaldo Balbino – Rogério Barbosa e Wagner Moreira



(Dr. Rogério Barbosa / Dr. Wagner Moreira)

Com o título de Moinho, este conjunto poético foi premiado com o terceiro lugar no Concurso Edital Estímulo às Artes – Literatura 2005, promovido pelo Suplemento Literário de Minas Gerais em parceria com a Fundação Clóvis Salgado. O poeta Evaldo Balbino, doutor em literatura comparada, apresenta-se aos leitores em sua primeira incursão artística, com uma poesia firme e que diz o que nela se faz trânsito através dos espaços da memória e da ruína. Por meio de uma linguagem limpa e de caráter simbólico, dá-se a perceber o sujeito ficcional, consciente de sua condição fragmentada na duração da existência. É por meio do movimento de lucidez que a voz poética nos inicia em um universo tipicamente rural em “Nascente”.

Aqui, o tempo parece perder-se no ir e vir das cenas cotidianas, impulsionando o eu para outro espaço, “Ruínas ao sol”. Neste novo lugar, instaura-se uma fissura no eu, algo irreversível em sua beleza aterradora, gerando um saber: “uma pedra sobre águas que o tempo não para”. É no vislumbrar a dança de uma pedra sobre o movimento das águas que a poesia de Balbino se encaminha para o próximo plano, o “Mar”.

Neste lugar, “As vozes se misturam, se abraçam, se atracam”, deixando aflorar uma vitalidade emblemática, enigmática, que tanto demonstra uma necessidade de uma realização transcendente quanto de uma atualização terrena. Isso em consonância com o imaginário urbano de um Rio de Janeiro singular, metrópole-mar, alegoria que arrebata e impele a criação dessa escrita para um desfecho em retalhos, em “Cimento Assovio” ― última parte do livro de poemas ―, “deslizando serpentinamente e à deriva” para uma possibilidade elíptica de se atirar sobre si mesmo. O discurso poético afirma outro modo de se estar aí, uma maneira de caminhar ousada, sem perder as referências já experimentadas. Essa a bela e firme estreia poética de Evaldo Balbino.

  (* Resenha para o livro Moinho. Belo Horizonte: Scriptum, 2006.)