O moinhodeusTempo triturando – Fernando Ferreira da Cunha Neto



Dr. Fernando Ferreira da Cunha Neto

Este é o primeiro, dentre os rebentos de Evaldo Balbino, que nos chega às mãos. Moinho, criação humana, forma rotunda, inventividade-marca impressa ancestralmente em nossos sentidos. Ele está na circularidade do tempo-dia, que amanhece, entardece, anoitece para, de novo, renascer. O mesmo movimento-tempo está arraigado em nossa concepção de existência: efemeridade pregressa, intra-uterina, nascimento, crescimento, envelhecimento, morte – o pó? As pás deste moinho nos tracionam e nos fazem girar, em uma busca incansável do humano, seus sentidos-segredos, só vazados através dos cristais-estilhaços, o máximo que a insuficiência da linguagem nos pode prover.

Em sua primeira parte, a roda deste moinho-tempo gira em direção a um antigo que nos chega através das fracas-fortes luzes de candeias. A querosene produz a fumaça que encobre o ontem. Mas são as mesmas tênues chamas que nos encenam a mulher vestida de chita, o banco de madeira no qual se senta o homem e nele “a dor se esquece”. Neste mesmo tempo-vento, mãos ainda atiravam sementes à terra, esperando a florescência. Rapazes e moças no cio, em suas alcovas-matas, buscando as saídas por onde emergirem. O canto de Balbino é o de um antigo-memória, as fímbrias líquidas, em roda espalhadas pelo senhor absoluto, o Tempo.

Na segunda parte, “Ruínas ao sol”, como o burrico insistente que faz girar a nora, prosseguem as pás em sua inexorabilidade. A luz-escrita, da qual se vale o sujeito poético, é outra daquela que aparece no primeiro segmento do livro. É chegado o tempo em que “[…] as máquinas foram chegando/ e /profanando o campo humano”. As lamparinas foram apagadas-silenciadas, e os olhos da vila veem o neon que se espraia do alto dos postes de concreto. Mãos que antes revolviam searas férteis e colhiam espigas, agora golpeiam as áridas e infrutíferas pedras. É neste mesmo segmento que o sujeito poético, um tanto cansado de ver os campos que cultiva estéreis, quer mirar outras paragens. Do cenário de montes-colinas, recortados por serras, para a miragem líquida – imensidão aquosa do mar: “Concordo, meu filho, não nego: nosso mundo é muito pequeno”. Ao final destas “Ruínas”, adormece a pedra-roda que, antes, produzira tênue luz amarela, “[…] o fubá dourado, /, /que outrora era a própria luz”. É como se as pás do velho moinho tivessem cessado seu giro para dar lugar a outra(s) roda(s), mais veloz(es)?

O que parecera extinguir-se na segunda parte de Moinho se nos ressurge em “Mar” e com um novo frêmito. Sons de campanas estridentes, o vaivém insistente de águas tortuosas, muito diferentes do fluxo, ainda que por vezes em corredeira, do rio à beira do qual os homens semeavam pão, flores e ilusão. Mesmo em meio à cidade, em seus “[…] braços de rio a correr”, a imensidão aquosa de “Mar” cede lugar ao rio, pequenino, o lá da aldeia, onde, provavelmente, ainda habita o Ser do sujeito lírico. A cidade por onde paira o olhar poético é sugada pelo giro de um outro moinho-tempo que, embora eletrizado, metaforiza uma necessidade, visceral, de extrair algo do invisível e intocável passar do inano tempo, humano. Neste ambiente, a voz poética nos leva para uma margem-abismo de adversidades. Ainda assim, o sibilar de balas e o escuro dos uniformes da força policial são transmutados em versos, mesmo que destes, por obra do tempo dos homens, escorra um invisível sangue em direção à mãe terra. Nosso sujeito poético é o flanêur que serpenteia por acidentados montes onde se cravam barracos. É também os olhos que capturam a jovem, cabelos indômitos ao vento, em desabalada fuga pelas ruas da maior metrópole do país. Ao final deste seu “Mar”, nosso eu lírico retorna às margens da grande forma líquida a interrogá-la: “Como, nas águas profundas, / achar pérolas fabulosas / e o grito de alguma voz?”. Ele já o respondera. As pérolas fabulosas são os fracos filetes de luz que atravessam os poros dos versos que o sujeito poético lavra.

Na última parte da obra, “Cimento Assovio”, o fascínio, prenhe de certa tragicidade, do sujeito lírico de Moinho pelo inclemente ceifar do Tempo-foice, revolve-se em certa luminescência otimista, que os versos de “Um modo” assinalam: “Quero minha juventude, / a jamais perdida, / o que antes da ausência/ é um sentido […] / formando um globo com o seu norte”. “Clareira”, o fecho de Moinho, anuncia, a despeito de o espectro da morte habitar as matas que entrevemos, o sonido da roda, de novo, a chiar: “Vivamos, / mesmo que os moinhos estejam mortos / e o que se trituram / são apenas sonhos. / Vivamos, / mesmo que os corpos se amontoem/ pelas ruas da cidade”.

Em seu movimento pendular, o sujeito poético de Moinho quer ver uma nova aurora. Porque vê-la é acreditar em tênues fímbrias, ainda que estas sejam as marcas – digitais – que o Tempo-Deus gravou sobre faces sulcadas, lábios lavrados, pelos-peles enristados.  Olhos que buscam por luzes fugazes de lamparinas, pelos roçados e caminhos serpenteiam, em uma fé incomum, no poder que os versos têm.

(* Prefácio à 1ª edição do livro de poesias Moinho. Belo Horizonte: Scriptum, 2006. p. 9-11.)