Narrar é viver – Aleilton Fonseca



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Por Aleiton Fonseca

Evaldo Balbino aposta no conto como suporte da experiência vital dos afetos. Para o autor, narrar é uma forma de sobreviver. Quem não narra, esquece; não se revela, não realiza os amores e os desejos. Os narradores e as personagens mostram-se dispostos a amar e ser amados, mas nem por isso são felizes. Os percalços, os desencontros e as limitações tolhem o seu potencial, inviabilizando sua realização completa.

O conto de abertura é a história de uma perda, o que paradoxalmente significa um ganho de experiência. Do esboço, lavrado no diário, a vida evolui para as páginas da ficção. O narrador do conto “O jardineiro” afirma que: “Esquecer é horrível. (…) Esquecer me desaquece, é como estar ausente da vida”. O antídoto disso é recordar, é trazer as vivências de volta ao coração, senti-las com o distanciamento do tempo e a medida da maturidade.

São 12 contos vazados em linguagem enxuta, cujo processo narrativo se constitui com leveza e lirismo, em fluxos soltos e suaves. Narradores e personagens falam de seus amores: sentidos, vislumbrados, irrealizados, constituídos e vivenciados de forma oblíqua. Os enredos envolvem situações psicológicas, revelações, descobertas e sentimentos. São narrativas que revelam incompreensões, impossibilidades e barreiras, sem abdicarem de um certo ar de mistério.

No conto “A espera” o narrador questiona: “O que é o homem senão o extremo da opacidade, uma vez que águas transparentes existem apenas dentro de nós?” A indagação é instigante e flui com uma cadência de conversa amena, cheia de sutilezas e tonalidades machadianas. O conto dialoga com a trama de “Missa do galo”. E nos apresenta uma mulher de nome emblemático, e relegada pelo marido, que nos sugere uma Conceição contemporânea.

Noutro conto as sugestões da atração homoerótica fluem com sutileza e insinuações. “Sempre quis tocá-lo e nunca consegui.” E a explosão ao final é o sugestivo epílogo de amores proibidos e da ironia das impossibilidades. Já o conto “O relógio” destaca-se pela atmosfera de choque da família, diante da verdadeira identidade do filho mais novo.

De fato, estes contos são rituais de passagem e de rememoração. Os narradores buscam na memória as vivências e as ressonâncias de seus afetos. São tramas e dramas da vida cotidiana, mas que surpreendem o leitor com suas fortes revelações.

(Orelha do livro Amores oblíquos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2013)