A BOA MORTE



Os velórios são ainda, nas pequenas cidades, uma coisa muito fina, de uma finura mesmo. E isso porque vamos encontrar neles certa alegria. Uma alegria triste, é verdade. Mas aí até mesmo a tristeza busca vestimentas que nos conformam a todos. Com roupas sóbrias, a tristeza permite-se outras vestes. Tecidos mais soltos, cores de uma suavidade tendendo às vezes a aberrações sutis, enfeitam os escuros que perpassam os cômodos das casas onde o corpo é velado e vela a todos.

Isso mesmo! Os velórios, em muitas cidades dos interiores, ainda acontecem nas casas que nós todos habitamos. E que não venham afirmar tratar-se essa circunstância de um modo lúgubre de viver e de morrer. Não! Com acenos de uma austera melancolia, mas com sorrisos nos lábios, a vida palpita em cada canto, em cada cômodo da casa em cuja porta a morte bateu.

Nada de lamúrias que não sejam normais. Chorar faz parte da vida, e sem as lágrimas não nos banhamos. Afinal, é-nos difícil ver de outro modo o que desde tempos imemoriais começamos a sentir. Não é fácil apagar aqueles momentos inscritos outrora, nos quais começamos, ao enterrar nossos mortos, a tentar enterrar tudo o que nos dava medo.

Sem ceder aqui a posturas melodiosas e melosas, podemos sim acreditar nas sonatas da vida e em tudo o que dela faz parte inexoravelmente. Se estamos morrendo desde que nascemos, se nossas peles se vincam com o passar dos anos, se os cabelos embranquecem e os passos vão se tornando mais trôpegos por ruas e travessas, não devemos ler nisso um caminho para o fim. O que devemos é dar graças a Deus porque em nós muita vida ainda palpita. A pele, o cabelo e os pés estão insistentes em nós, dizendo que o tempo passa e que estamos todos caminhando pela travessia de uma vida interminada.

Para que se confirme o que estou afirmando, basta que voltemos às cenas dos velórios, dos velórios de que eu falava.

Em cada canto um episódio, uma conversa, uns olhares, alguns desejos, fofocas amenas, preocupações pelo café a ser servido, busca de pães para o alimento da madrugada. Não faltam apreensões pelos parentes que ainda não chegaram, pelo filho que mora distante e que, mesmo tendo sido avisado em tempo hábil, ainda não chegou. Busca de camas restantes, já sumidas sob corpos dormindo um sono tranquilo ou não, pois alguns insistem em roncar, asseverando que até mesmo no sono continuam por uma existência teimosa. E onde colocar o filho que dorme no colo, a garotinha que está também com sono e que não foi perguntada se queria participar desse cenário, mas que no fundo também desejou estar no mesmo? E sem falar dos que não choram, daqueles que não são parentes do falecido ou da falecida, mas que nesses momentos se deixam molhar por sentimentos de pêsames pronunciados em rituais. E as piadas, os casos engraçados que nos contam, geralmente nos quartos ou na cozinha? Porque aí as bocas podem dar mais vazão a uma alegria de viver que deve, entretanto, lembrar-se a cada instante de uma inevitável tristeza e de um necessário comedimento.

Essas piadas e esses casos não poderiam faltar deveras. Sem eles, os velórios não seriam os mesmos. Pejados de austeridade, tais rituais nos levariam toda vontade de vida, como se fossem uma constatação só: a de que tudo o que fazemos e sonhamos é apenas um ato de escavação na insolvência. E como essas piadas ficam mais saborosas, porque degustadas com café pela madrugada! Já ouvi os que defendem, para esses casos, o uso de uma cachacinha, para esquentar a noite e a prosa. Eu, de minha parte, confesso que prefiro uma cafeína bem amarga e lúcida, umas doses do café me ensinando que a vida, apesar de tudo e por isso mesmo, é bem doce, de uma doçura impenetrável como pedra, aparentemente indócil, mas toda porosa.

Recordo certa madrugada quando, saindo eu da sala onde velavam o corpo de uma senhora ali aparentemente silenciada nesta vida, deparei-me com sua filha que chorava momentos atrás ao lado da mãe. Onde fui encontrá-la? No seu café, sentada à mesa da cozinha. E como ria, com dentes alegres mostrando-se, contando e ouvindo piadas! Seus braços de um nervosismo cheio de vida não se continham, falando sem palavras de um desejo pleno de algo que não se perdera, de uma vida latejando pelas veias. Num comentário a esse episódio, no dia seguinte, me veio um senhor a constatar sobre o papelão que aquela mulher representara, o desrespeito que ela manifestara em relação à própria mãe.

Ora, mesmo não comendo um saco de sal com as duas mulheres, mãe e filha, não sabendo de suas relações que, segundo constava, eram das melhores, pude sair numa pronta defesa, se não das envolvidas no enredo, pelo menos da vida e (por que não?) da morte. Argumentei que nos atos da filha a mãe ainda vivia. Não fui entendido no que afirmei. Mas creio ter colocado em suspensão o meu interlocutor que, entre dúvida e reprovação, resolveu deixar em paz, pelo menos naquele instante, a duas vidas de que falávamos.

Sempre gosto de dizer que a morte é, algumas vezes, nossa comadre. E sei que muitos não me compreendem, vendo nesta assertiva uma postura mórbida de quem a pronuncia. De morbidez nada tenho, graças a Deus! Já perdi alguns dos meus, de modos tristes e necessários, mas nem por isso me contento com a simples anuência de que a vida continua. É que, simplesmente, a vida nos convida a várias danças, as quais se passam em vários chãos, sombreados ou não. E sei que a própria morte, nos momentos imperiosos, se cobre de véus, tênues, velando-se e se revelando, mas nos ajudando a todos na sutil festa de celebrar a vida, mesmo sob as caras contritas.

(Do livro Móbiles de areia)