Promessa é dívida



Chico Cota tinha chapéus que não acabavam mais. No seu quarto, dependurados em pregos, os chapéus substituam quadros, mas tinham que dividir espaço com o mártir São Sebastião. Cantador em Folias de Reis, enchia a boca com as palavras “Santo Mártir, ai, ai!”. Quando não falava do santo perfurado a flechadas, punha-se a dizer sobre os chapéus. Todos eram de palha, mas seu sonho mesmo era ter um chapéu de taboca.

O compadre Joaquim, ouvindo dizer de tal desejo, foi à casa do Seu Chico para questionar por que ele nunca lhe havia dito que queria tanto um chapéu de taboca, se ele, Joaquim, era exímio fabricador desse artefato. Conversa vai, conversa vem, e, entre goladas de café, Chico Cota explicou com humildade que não queria molestar o compadre. Pra que tanto trabalho, se ele já tinha tanto chapéu?! Joaquim não hesitou e disse ao amigo que não se avexasse e que logo lhe faria e mandaria um chapéu de taboca.

Promessa feita, e Seu Joaquim enfartou dias depois, bem de noitinha, lá na sua casa no meio da grota. Chico Cota compareceu ao velório, e ajudou a chorar a morte do companheiro. As lágrimas não se deveram ao chapéu, que amigos valem mais que essas coisas. Para dizer a verdade, nem lembrança mais havia do compromisso feito.

Meses após, Chico Cota vinha do engenho da Fazenda do Catimbal. A noite era um pouco clara, mas uma penumbra insistia em escurecer a vida. Lembrança do chapéu e do Seu Joaquim? Nenhuma. Quando se aproximava da Porteira das Aroeiras, viu que ao lado dela um homem estava sentado sobre uma grande pedra. A rocha era branca, fincada ali pela natureza, portanto existindo desde sempre. No retraimento da noite, não se via o rosto do homem. Chico Cota foi se aproximando. A criatura usava chapéu, fumava um pito de palha e segurava um tição com a mão direita.

De repente, num clarão de memória, a noite ficou aberta, e Chico sentiu as pernas tremerem. Parou onde estava, o coração disparado, a língua tremente, o corpo querendo desabar na estrada. O que fazer agora, meu Santo Mártir? Será o Compadre Joaquim? Não, não pode ser! Mas quem estará aqui, numa hora dessas, sozinho? Só pode ser alma penada! E Chico Cota foi logo rezando e benzendo-se:

Me vale, meu Santo Mártir!
Me encontrei com Satanás;
me ajuda neste combate
de lado, de frente e trás.

Me vale, meu Santo Mártir!
Pois estou vendo o demônio,
que amarra com muita arte
as pernas deste campônio.

Me vale, meu Santo Mártir!
Que o medo me ronda a fé;
me livra desse embuste,
que parece, mas não é.

Me livra, meu Santo Mártir!
Que a morte me leva, mata
com a força do grande Marte
na escuridão dessa mata.

Me livra, meu Santo Mártir,
do forte Diocleciano,
que vem como destra flecha
neste momento profano!

Me vale e livra, meu Santo,
nos rosários desta prece;
me vale e vela-me o tanto
que ao teu poder apetece.

Sobre a pedra fincada na terra, o homem continuou fumando o pito de palha. Ficou ali parado, como se ninguém estivesse perto dele, de fato habitando um outro mundo. Seu Chico Cota foi repetindo a ladainha, foi insistindo com as palavras e com o santo. Quanto mais ele elevava o tom da sua reza, mais quieta ficava a criatura ao lado da porteira.

Me vale, meu Santo Mártir!
Me encontrei com Satanás;
me ajuda neste combate
de lado, de frente e trás…

Reza tem dessas coisas: requer paciência que nunca deve findar. Do contrário, tudo se bota a perder. Chico não esmoreceu. Restava-lhe somente uma possibilidade: rezar, rezar e rezar – e fazer isso cada vez mais com ênfase, com fé inabalável.

Me vale, meu Santo Mártir!
Que o medo me ronda a fé;
me livra desse embuste,
que parece, mas não é.

O que parece ser, mas não é, nos assusta. Temos medo do desconhecido. Além disso, quem garante que um embuste espectral não possa nos tocar, nos pegar, nos fazer danos terríveis? E Chico Cota já tivera, certa vez, uma experiência assustadora. Deparou-se com o fantasma de um cavalo – um cavalo de três pernas – e chegou até a tocar esse ser assustador. E agora, o que fazer diante daquele espectro, daquela alma fumante e silenciosa? O que fazer? Rezar, e nada mais:

Me vale e livra, meu Santo,
nos rosários desta prece;
me vale e vela-me o tanto
que ao teu poder apetece.

A reza do Seu Chico subiu mais às alturas daquele céu noturno, um céu aparentemente sem anjos e santos para auxiliar um pobre mortal. A criatura, ao lado da porteira, começou a mexer-se. Chegou o tição perto do rosto, afugentando a sombra que o chapéu fazia. O chapéu era de taboca, e o rosto, meu Deus, o rosto era do compadre mesmo! Chico Cota continuou a rezar. São Sebastião teve piedade e ajudou seu devoto. Encorajado pelo santo, Chico ergueu a voz para o compadre e disse, muito trêmulo ainda:

– Compadre, se é pelo chapéu prometido, não se amofine, pois me dou por satisfeito. Pode ir em paz, com Deus e não com Satanás!

O homem nada disse. O semblante não se abriu. Um rosto meio escondido pela sombra do chapéu, uma fisionomia meio guardada pela noite que a tudo guarda. Uma expressão meio camuflada pela brasa do tição que nos engana. Ergueu-se sem voltar a cara para o Chico Cota. Dirigiu-se à porteira e passou por ela sem abri-la. Foi fumando o seu pito e balançando o tição para alumiar o caminho. Foi-se, até sumir-se na escuridão.

(Do livro Móbiles de areia)