O pintor



É com palavras que faço pinturas. Desenho esboços para a eternidade. Não há nenhuma presunção no que digo. A eternidade de que falo é um flash dado por minhas mãos brancas e cansadas, porém retratistas. Coisas e cenas e pessoas são congeladas. Bichos também. E todos ficam entre palavras presos, mas para sempre cheios de vida. Pois terão novamente fôlego toda vez que um mortal como eu abrir uma página qualquer e acessar amorosamente essas palavras.

A vida é leitura do que se pintou e se pinta. Nossos olhos têm o poder de ressuscitar mortos, de fazer renascerem constantemente passados. Perante os leitores nada sucumbe: o tempo e a morte perdem a sua força diante da fome de qualquer leitura.

Desenho agora formigas caminhando em suas trilhas. Caminham porque uma força maior ou uma necessidade as move, e não porque as retrato assim. Sou apenas um desenhista. Caminham hoje como antes o faziam. O mundo muda, mas nem tanto. Nas transformações que se operam, continuamos como formigas em nossa faina. Continuamos como insetos alados, os que voam entre plantas e desejos. Ali e acolá plantas rasteiras, as que dominam em sua pequenez as majestades da vida. Cupinzeiros solenes, prédios de terra. Troncos de árvores verdes ou já mortos, quietos no chão. Tudo isso eu desenho.

Na casinha ao lado, com tijolos à mostra, dona Esmeralda brilha sob a luz do sol, quarando roupas entre pedras de anil espalhadas. Seu filho, tão raquítico e feliz, serelepe formiguinha, bate algumas toalhas brancas na pedra ao lado do riachozinho. A cerca de arame farpado dança com o vento, em cores brancas e outras cores. Parece tudo uma multidão de dançarinos bailando o baile da vida.

O riozinho corre, um ribeirozinho de nada, com lodo nas margens, serratucanos apetitosos, folhas diversas navegando sobre as águas poucas, tranquilas. Folhas que ainda não morreram. Águas sem raiva nenhuma, as do riozinho. Sua cólera é como a fúria dos xingamentos de mamãe, numa autoridade amorosa com os filhos.

Quando criança eu gostava de ser esse menino. Gostava de fazer descerem sobre essas águas as cascas dos umbigos de banana. Dizíamos “imbigo”, e ficava tão bonito assim, desse modo sem escola: o imbigo era mais gostoso. Eram as côncavas proteções do miolo, apaixonadamente roxas, que singravam as águas. E os filamentozinhos brancos lá de dentro é que eu comia com boca boa. Mamãe os cortava em rodelas, esfregava-os com afinco e limão para que não escurecessem – o sempre medo do escuro. E depois os ferventava, buscando tirar-lhes o amargor que não presta. E assim lhes dava um tom rosáceo, um roxo claro, ainda sutilmente da cor da paixão.

Assim como o menino bate a roupa na pedra, espumas coloridas tomando um banho de sol, desse mesmo modo eu fazia. Ajudava mamãe a torcer todos os panos, a desdobrar os tecidos que ela cosia, que ela nos fazia e com os quais agasalhava a todos nós. Ajudava a desdobrá-los com um imenso poder. Poder que ela tinha e que me transmitia. Dádiva que não se nega: a de desdobrar vidas.

O que mais desdobro hoje em dia são palavras. Antes eu só as ruminava, comia-as como se fossem aqueles amendoins em casca que meu pai me levava nas noites do Ribeirão de Santo Antônio. Aqueles mesmos amendoins que depois ele ainda me levou algumas vezes, quando já morávamos na Várzea, periferia do centro de Resende Costa, entre terra vermelha e piteiras. É isto mesmo: à medida que eu ia crescendo, meu pai já não me levava mais amendoins em casca. Eu, um ser tão pequeno, um elefantizinho de nada, sendo desmamado aos poucos.

As palavras eram comidas, ração de outro mundo para um menino que não as lia. Ração que aos poucos foi virando tão íntima, tão do garoto que as ruminava com sabor e medo. Eram saborosas a ponto de me viciar.

Hoje, além de ruminar as palavras, também as distendo como se fossem lençóis de cores fartas. E abrir as palavras, quará-las ao sol com alegria e vontade, é como ver formiguinhas andando bem ao rés-do-chão, e ver nesse andar o que nós somos. É ver uma criança e sua mãe batendo roupa ao lado do riachozinho, como se estivéssemos vendo a nós mesmos batendo nossas vidas, quarando nossos desejos debaixo dum sol amorável.

Escrever tudo isso é pintar com palavras. É um modo de não nos esquecermos e de firmarmos nossa pousada eterna entre as páginas de um livro. Um dia, mesmo amareladas, guardadas com esmero ou perdidas entre outras folhas sem importância nenhuma, essas páginas palpitarão, produzirão rumores de cores imorredouras.

(Do livro Móbiles de areia)