Peixes à meia-luz



Mi mano ascendió lentamente hasta su rostro, encontró el surco de horror, y empezó una lenta, convincente y convencida caricia.

Mario Benedetti

Olhavam-se ansiosamente, buscando não perceber as mesas em torno e desejando com esse ato de desespero angariar alguma glória naquele encontro, alguma centelha que brilhasse no ambiente, que iluminasse aquelas duas vontades sobre as cadeiras, mas que ao mesmo tempo não chamasse a atenção de ninguém.

Os casais das outras mesas não poderiam em hipótese alguma pressentir o perigo ali ao lado, a iminência do desfazer-se de tudo. As velas deveriam continuar alimentando todos os idílios, deveriam infiltrar-se cada vez mais naqueles olhos tão pequenos e sonhadores, como já vinham fazendo desde o momento em que foram acesas. Os braços, todos os braços, vagabundeavam sobre as toalhas claras, de um tecido higiênico e macio – o que se percebia, apesar da penumbra.

Ela, no momento em que chegaram os dois, providenciou tudo, com a mais perfeita prontidão. Buscando disfarçar o nervosismo, ajeitou a cadeira para que ele se sentasse, foi ao outro lado da mesa e sentou-se também. Chamou imediatamente um dos garçons e tomou as devidas providências que faltavam para a iniciação naquele ritual: pediu um vinho branco e um talharim à parisiense.

De qual marca, senhora? – indagou o garçom, disfarçando a indiscrição perante o rosto da mulher, mas meio que espantado com o seu ato.

Antes de uma sugestão impertinente, ela, decidida, falou ríspida: Gato Negro, obrigada!

Ainda à pergunta do garçom se deveria trazer a bebida e esperar um momento para um pouco depois servir o prato, ela respondeu negativamente:

– Não, não, traga o prato o mais rapidamente possível, por favor – o que falou enquanto pensava na necessidade de precipitar os acontecimentos, na necessidade de não haver nenhuma interrupção posteriormente. Assim comeriam, falariam o que deveria ser dito, e suas mãos, provavelmente indecisas sobre aquela toalha, ora avançando adiante pela mesa, ora retrocedendo até os corpos, poderiam o mais logo possível descansar em suas respectivas casas sobre uma cama vazia na escuridão do quarto.

O prato não demorou a chegar. Isso deu aos dois certa satisfação, pois, com mãos e bocas ocupadas na degustação do Gato Negro e do talharim, teriam auxílio na difícil empreitada que estavam enfrentando.

Enquanto comiam, ele lhe dizia da lua lá fora, o quanto estava bonita, apesar de infelizmente baça. Uma tristeza mesmo, ele insistia, assim fraquinha, sem se mostrar, ofuscada pelas poucas luzes da rua que levava até ali, onde jantavam.

Ela ia concordando com meneios nervosos da cabeça, mas na verdade discordando cúmplice, pois ambos preferiam as coisas como estavam: a rua um pouco deserta, o que perceberam quando ela facilmente pôde estacionar o carro; o restaurante na penumbra, com velas românticas ordenadas geometricamente sobre as mesas; e os demais clientes não percebiam a presença deles, todos preocupados com seus amores, deixando-se sugar por todo o idílio da noite.

Era o restaurante um ambiente perfeito para os dois. Distinto da tarde da última sexta-feira em que se conheceram no Parque do Recanto, à beira de um riacho afastado, do outro lado de uma extensa colina.

Ele sempre ia ao parque pelas tardes: a noite vindo e ele dando comida aos peixes, mirando nas águas aquelas bocas atrevidamente se abrindo e sugando os bichinhos fracos atirados por suas mãos. O silêncio em volta, somente o ruído dos pássaros, das árvores, e mais nada. Às vezes jogava a comida com fúria, como se quisesse eliminar a possibilidade de qualquer fome, como se desejasse quitar as necessidades que porventura pudessem existir naqueles seres tão indefesos como ele.

Na tarde da última sexta, entretanto, não pôde cuidar dos peixes tranquilamente. O dia era de uma luz intensa, forte, insuportável. Dia de uma felicidade inevitável. Dia em que todos pareciam apaziguados, transbordando-se plenamente de seus contornos. Minutos após sua chegada ali, enquanto tocava com suas mãos aquela água fria, duma frieza que lhe era amiga, ela se aproximou lentamente da outra margem do riacho. Ele fingiu não perceber nenhuma presença e, contrariado, continuou no que fazia. Os olhos dos dois ardiam com tanto sol. E o dia insistia em tudo. A noite não chegava, e ele, depois de perceber a presença, buscava um modo de levantar-se, dando as costas para aquela mulher, mas sem que a mesma se desse conta de que o havia molestado.

Ela o buscava com os olhos, ali do outro lado do riacho, mesmo sem conhecê-lo, pois parecia raro aquele homem que, distinto dos demais, não olhava para ela, não a repelia como que perguntando “o que você faz aqui, pedra no caminho? Por acaso não percebe como está incomodando?”. Não, ele sequer a olhava, então não poderia esperar nada mais dele. Não falaria com ela. Não a expulsaria. Apesar de não sentir-se bem-vinda, continuou buscando o homem com os olhos, como se ambos tivessem desde sempre algo sobre o que conversar. Arranhões, talvez, para trocarem entre si, pois ela não deixava de perceber os movimentos amargos com que ele, perto das águas paradas na margem em que estava, fazia minúsculas ondas que se prolongavam frenéticas, enraivecidas até ela. Ondas que morriam ali, entre os quatro olhos amargos. Não deixou de ser tomada, em alguns momentos de dúvida e medo, por uma vontade de fugir apressadamente e não permitir que a luz insistente do sol a denunciasse tanto, mas também precisava que o homem a percebesse – e isso ela não entendia, pois sempre a fuga fora seu caminho. Então decidiu atuar depois de alguns minutos, visto que ele não erguia a cabeça para destinar-lhe a mirada que ela tanto queria e temia. Resolveu arriscar qualquer ensaio. O homem talvez ficaria arredio, mas pelo menos não seria tão silencioso: necessitava urgentemente acirrá-lo. Começou a atirar pedrinhas nas águas. Pedrinhas que ia pegando pelo chão, minúsculas mesmo, pois não queria machucar os peixinhos.

Ele, a princípio, não ergueu os olhos, mas seu incômodo foi aos poucos se transformando em raiva, num tremor de dentes, num ímpeto selvagem, depois de ver o cardumezinho dispersando-se assustado. Foi aí que se ergueu na sua estranheza irada e faiscou os seus olhos na mulher.

Os olhares cruzaram-se naquele instante, penetrando-se. Fizeram-se revelados, existindo como antes nenhum dos dois se atrevera a arriscar. E seus rostos instantaneamente tiveram as deformações ampliadas. As marcas de uma queimadura remota se fizeram mais presentes na face da mulher, enrugada. E o rosto do homem, como que delineado a esmo e à luz parca de uma noite escura, teve suas desproporções agigantadas.

Foi aí que ela abaixou os olhos de repente, assustada. Quis tanto demandar a atenção daquele homem, atirou pedras nas águas calmas, buscou atormentar aquele silêncio e agora, depois de tudo feito, sua visão começou a padecer de uma dor, um incômodo descomunal.

Ele, com a raiva arrefecida de imediato, não pôde mais tirar os olhos da mulher e continuou, silenciosamente, a olhá-la, como que solicitando sem palavra alguma a continuidade daquele tormento.

Ela foi aos poucos reerguendo a cabeça e fixou as pupilas naquele homem, no rosto dele agora virado para sua direção.

Os dois começavam a se gostar, compadecidos, atraídos e horrorizados.

Ali mesmo, depois de uma lenta aproximação, um acercar-se que para eles durou uma eternidade, combinaram a noite do encontro. E agora comiam o talharim.

O molho branco talvez não tinha nenhum sabor especial, se um pouco mais salgado do que de costume, se mais ralo ou denso, ela não saberia dizer. Sempre viera ali sozinha à luz das velas e se fartava na sua solidão gloriosa. Uma glória sim, cheia de desejos supremos, desejos de amar-se na meia escuridão.

Ele nunca chegara a entrar neste restaurante, inclusive nunca chegara a comer aquele prato, como lhe disse na sexta-feira ao ser convidado por ela.

Como agora estavam comendo, e ali teriam que se quedar por mais tempo do que quando se falaram no parque, ela resolveu lembrar-lhe o fato de ele nunca ter comido talharim à parisiense e principiou dando-lhe a receita. Ou talvez introduzira esse assunto por presumir que ele fosse um homem também sozinho e que poderia às vezes cozinhar somente para si, na sua casa que possivelmente também existia na escuridão. Ou será que vive com mais alguém? Será que tem uma namorada, uma mulher que o deseje? Não, não pode ser. Se há alguém que lhe destine cuidados, talvez seja apenas a mãe, ou uma irmã, ou tia, e nada mais que isso. E de repente foi tomada por um ciúme nunca sentido: aquela estranheza não poderia ser compartilhada com ninguém, e muito menos desejada – a não ser por ela.

Enquanto comia, ele escutava a fala incessante da mulher, e começou a desorientar-se ao perceber que a massa em seu prato se acabava rapidamente. Calado, ia ouvindo a mulher falando, e então lhe restava apenas comer, sugar aquele talharim.

Quando o silêncio também se apoderou dela, ele, como que buscando ganhar uma eternidade de tempo e salvação, iniciou ofertando suas palavras, até então quase inexistentes. Começou a dar-lhe detalhes acerca dos peixes, dizendo-lhe que eram seus amigos havia tempos. Amigos efêmeros, na verdade, mas que de sua fugacidade não tinham culpa, porque se iam pela necessidade de buscar a manutenção da vida e de fugir da morte.

“Há muita gente que não respeita as leis e pesca os pequenos. Têm que fugir mesmo, os pobres!”

E foi dizendo ainda mais e mais aos ouvidos da que, atenta, começava a imiscuir-se com ele, com seu corpo de homem, com seu corpo de palavras em peixe.

“O eterno duma amizade passageira, porque morrem muito cedo, você sabia?”.

Poderia ele falar da morte sim, pois esse aceno rubro e negro ali haveria de ser tudo para ela. A vida há sempre de abrir alas para a morte. Bastaria talvez morrer, embalando-se sobre ou sob aquele abismo tão fulminante. Os lábios dele eram abismo, e ali ela queria ser sorvida.

“Eles se vão ou morrem, mas nos amam. Talvez seja por isso que os comemos”.

Ela sorriu um tanto descontraída e triste. Deveriam, talvez, ter pedido um peixe. Um pescado à espanhola, que ela tanto adorava.

Ele ia falando. Ele ia falando as palavras que ela, devoradora, devorava. Há de se comer o que se ama.

Ela poderia agora saber um pouco sobre os peixes, como se acasalam, como têm de arribar para sobreviverem, como se aproximam quando alguém lhes demonstra amizade, como nadam na frialdade das águas… E assim continuaria aprendendo muito mais com esse homem do outro lado da mesa.

E ele prosseguiu falando, contando-lhe coisas diferentes das que ela conhecia. Não dizia de sonhos, de fantasias supremas, mas de coisas concretas, como as pedras pelas quais passava quando se dirigia todas as tardes ao parque. Pedras duras, umas pequenas e outras maiores; e todas lhe permitiam a passagem sem tantos danos. E acrescentou por fim que ali, entre as pedras e próximo aos peixes, ele se sentia bem.

Não precisava dizer mais nada, aquele homem. E dele ela já não queria saber também mais nada. Com quem vivia, se amava alguém, se era feliz antes daquela tarde no parque ou não. Nada mais já lhe interessava. O que queria agora era entender por que as pedras e os peixes poderiam fazer tanto bem assim a uma vida. Queria aprender essa dádiva. Precisava dividir com alguém todas as possibilidades de vida.

E a ausência de forma no rosto do homem foi se misturando aos poucos às cicatrizes que ela trazia em suas bochechas. De repente lhe pareceu que ela mesma tinha seu perfil deformado e viu suas próprias rugas impressas naquele homem que falava deslumbrado de peixes e pedras.

Decidiram sair do restaurante ainda cedo.

Agora, onde a luz era mais clara, cruzaram a porta observados por olhos que fingiam discrição, mas que não logravam disfarçar um certo espanto. A despeito disso, não deixavam todos de sorrir para os dois como exige o protocolo. Um sorriso cheio de vela, de idílio, de uma pretensa felicidade exclusiva. Uns sorriam com asco; outros, compadecidos ou simplesmente aborrecidos, porque muitas vezes a pena que sentimos é fruto de uma percepção incômoda, uma incapacidade ou impossibilidade de entender tudo ou de suportar o que se nos escapa.

Cruzaram pelo umbral como sombras fantasmagóricas, abjetas. Mas o fizeram triunfalmente.

Atravessaram a rua e chegaram ao estacionamento, um ao lado do outro, arriscando, gloriosos, uma carícia entre mãos cúmplices e amantes. Entraram na semiescuridão do carro, e ele se ofereceu para dirigir desta vez.

“Sabe fazer isso também?”

“Não só de peixes entendo”, respondeu com um sorriso nos lábios deformados, “mas também de seus nados voando como pássaros”.

Miraram-se fixa e profundamente, em uma cumplicidade impertinente ao tácito consenso do mundo.

Resolveram ir para a casa dele, depois de ele ter declarado que morava só.

Na penumbra do quarto começaram a se amar, tocando-se cuidadosamente. As mãos do homem foram escalando hesitantes, até resvalarem nas cicatrizes da mulher. E ali, sobre uma pele enrugada, seus dedos tremiam, carinhosos. Ela, então, estimulada pelo ato, acariciou-lhe o rosto disforme, contornou com as palmas de suas mãos aquela irregularidade. Os corpos tremiam de gozo e de terror. Abraçaram-se como Narciso e sua imagem, e a noite escura pôde ouvir estilhaços prateados dentro do quarto, soluços e convulsões sobre o lençol suado da cama.

(do livro Amores oblíquos)