Entre Borda e Fôrma



¿Recuerdas el miedo que nos da querernos porque no sabemos si podremos querernos tanto? ¿Recuerdas que es una locura amar a menos que se ame con locura?

Tomas Ortiz

O relógio me diz que ainda não são dez horas. Está parado, morto, uma incongruência no tempo. Onde estarás agora, neste momento em que minha cabeça dói e o corpo reclama do amor a um? Não sei. Como também não sei onde eu estava com as ideias quando fiz aquilo, quando as palavras não ditas foram substituídas por uma tentativa de amor, apenas uma.

Hoje meu corpo nasceu dolorido, como que amado por um furacão. Certamente isso foi um ligeiro sonho e eu apenas dormi de mau jeito. Foi isso que aconteceu. Somente isso. Logo este corpo que ama apenas por sua parte. Quem haverá de amá-lo? O que tive foi um sonho e não pude contar pra você hoje de manhã. Você saiu tão cedo, dizendo que tinha pressa e me pediu que fosse à sua casa, às dez da noite de hoje, pra tomar alguma coisa e bater um papo. Os seus pais estariam ausentes, você me disse, e poderíamos ficar mais à vontade. Agora são dez horas da mesma noite. Esta mesma em que eu deveria estar com você, falando das paqueras que não tenho e que, na verdade, nunca tive, mas me faltou coragem de ir. Tenho medo de não responder por mim. Na verdade, se você tivesse ficado mais tempo aqui, hoje de manhã, eu não teria dito nada a você. Nunca lhe falo tudo, o que eu deveria ter dito desde a primeira vez em que passei minhas férias em Torres. Não tenho como lhe explicitar o objeto de meu sonho, se ele simplesmente é você. Você! E mais ninguém.

O relógio me diz que agora são dez horas. O tempo passa. Por que não para de uma vez, por quê? Esse moleque inconsequente, esse bandido a roubar-me certos momentos. Não poderia ter morrido o ontem à noite. Estou aqui esperando, e não chegas. Onde estarás agora? Estou aqui esperando e já são dez horas. És sempre tão pontual, será que não vens? Deveria te ligar, porém como dizer que te espero e que por ti não sou eu, mas apenas uma pessoa fora de si? Não há como falar.

Hoje meu corpo está como se fora amado ontem. Mas nada é o sonho senão uma ilusão da humanidade. Somente isso. Tem momentos de minha vida que eu gosto. Você se dá bem em Geometria e eu em História. Estudamos muito, juntos. E, quando não há o que estudar, trocamos ideias. Você fala de uma paquera que foi boa e pergunta sobre a minha. Digo que foi tudo OK, mas nada de sério, apenas uma paquera. Talvez assim você perceba que estou sempre só e queira me ter. Como o engano tanto, meu amor! Por que faço isso? Por que não dizer que quem amo é quem está sempre à minha frente, comigo estudando e comigo vivendo? Mesmo que você diga não, que não podemos sentir isso, que tudo está errado e não deve ser assim; mesmo… eu preciso… nunca lhe falo nada. Nada.

O relógio continua me dizendo que já são dez e trinta. Como seria bom tocar em teu corpo à revelia do tempo e que percebesses essa minha vontade. Mas és tão opaco e não tens contigo a leveza de um pássaro. Não és leve, mesmo vivendo longe da família. Gostaria que sentisses os meus toques, o meu amor em silêncio, sem te acordar. Sempre te amo assim. Sempre neste ensaio, nesta quase queda em teus braços, querendo divisá-los realmente humanos, capazes de um afago, tão somente um, sem mais sonhos. Meus dedos são rebeldes, e calados. Mas às vezes são o estar fora de mim, como ontem. Falei pra minha família, por telefone, que estava na casa de um amigo e que, por causa do muito chover, não voltaria. A noite estava irada, cuspindo trovões e relâmpagos, mas eu era apenas um rio de águas mansas descendo para o mar. Ficamos juntos, estudando até mais tarde. O sono veio e cada um para um quarto. Minhas águas mansas começaram a encapelar e não aceitavam calmaria. Saí de teu quarto, com os pés hesitantes, e meu corpo querendo tua cama, simplesmente querendo.

Anteontem mesmo mamãe me ligou e perguntou, num tom de brincadeira, quando, depois de formado, vou dar a ela um lindo neto. Devo me formar primeiro, depois penso nisso – foi a minha resposta. “Calma, filhote, estou só brincando! Tudo a seu tempo, não é mesmo? Mas não se esqueça nunca do meu sonho”. Da conversa com mamãe também não lhe disse nada. E nunca diria a você sobre a noite de ontem. Mesmo chovendo torrencialmente, você entrou nos meus sonhos (você vive dentro deles), amando-me, o que não pude responder com meus lábios ou meu corpo, porque me faltou a coragem de enfrentar não sei o quê. Como eu desejei, naquela abstração noturna de meu quarto, que seus afagos e beijos se concretizassem, que meus olhos acordassem (porque eu sabia que era sonho) e vissem você ao meu lado com esse corpo seu. Realmente ao meu lado.

O relógio teima em me dizer, são onze horas. Tudo se precipita. Espero. As ondas cessaram de encapelar. A noite é silêncio, mas ainda escura como ontem ao redor da cama em que eu estava. O resto era a amplidão de um quarto, quatro paredes sufocando convulsões. Os pés caminharam arfando, lentamente. Dormias a sonhar, porque sorrias. Tua boca voava levemente no breu, insinuando-se. E teu corpo forte se escondia sob o lençol tão alvo. Eu, parado na porta, e os toques a te tangerem dos pés aos lábios. No escuro eras vulto concreto, perto de mim, mas ainda inacessível. Minha boca procurando a tua, e o amor fora apenas um, apenas meu. Como poderei te possuir? Será que não percebes que minto quando falo de meus casos? Por acaso não enxergas? Por favor, não insistas em dormir como ontem à noite! Vem pelo menos me tomar o copo de vodka que está ao lado do sofá e representar o papel de meus pais, dizendo que está errado, que tudo neste mundo está errado, que nada vai mudar, nada… Mas enquanto não vens, vou esperando que um dia tudo aconteça, que o copo se despedace no chão e que os cacos, imprestáveis, não sejam postos no lixo ou não fiquem sob o tapete da sala, distantes, sem macular a estética da casa e sem ferir os olhos das visitas…

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Quis ficar a noite inteira ao meu lado e eu lhe disse que não. Argumentando, reafirmei que me era difícil o sono nas noites de verão; e, diante da manifestação em querer ficar comigo, debaixo do mesmo teto e em camas diferentes, disse-lhe que não seria possível, pois no dia seguinte eu sairia cedo para o trabalho. Mas como!? Amanhã é sábado! Pois é, mas meu chefe me convocou e não tenho escolha. Devo ir.

E assim sempre fui indo, para além de sua presença, dia-a-dia. O que se esquiva. O tempo passa, eu sei, mas eu sou sempre o mesmo, apesar de meu corpo desfazer-se cada vez mais. Eu sou eu cada vez mais em fragmentos. Cada pedaço, cada átomo que se entrega pouco a pouco aos vermes do mundo, guarda em si a incapacidade do meu todo.

Saiu de olhos para baixo, aceitando incrédulo o meu sábado de labor. Saiu medindo mais uma vez os passos, computando-os na soma das idas e vindas, ensaiando para não errar da próxima volta.

E antes de seu retorno, eu mais uma vez fiz da minha noite e do dia que se seguiu aquela mesma cena. O sono que não me veio, porque era noite de verão, deixou-me intacto para continuar as atitudes que sempre me assaltaram. Levantei-me ao meio-dia e segui para a Praça da Liberdade, após uns goles de café amargo.

As pessoas caminhavam normalmente pela praça, sorvendo o ar puro produzido pelas plantas verdes que sempre estão bem distribuídas ao longo de todo o espaço. Casais adolescentes se beijavam ou se abraçavam com ardor, principiando-se nas descobertas dos corpos quentes e insaciáveis. Entregavam-se a fogos que ardem e que são permitidos. Ali eram todos livres, de uma liberdade que reverberava mais do que a luz do sol que queimava minha cabeça.

Sempre me agradou aquela beleza turística, mas a praça com seu espaço planejado me pareceu ali, naquela manhã de sábado, muito geométrica. Geométrica como as quatro paredes de sempre entre as quais nós nos amamos algumas vezes, nós dois isolados de todos.

Sentado num banco entre pombos, crianças e casais, pude perceber que eu não lhe ouvia a voz entre aquelas soltas pela praça. Certamente – cheguei a pensar – não me procuraria mais. Como me conhecia bem, poderia até estar imaginando que eu estivesse ali e, na sua casa, com o silêncio batendo contra as paredes, ou a família enchendo o saco, estaria talvez sentindo um ar de mágoa, daquele jeito dos que não choram por exigirem dos lábios e dos olhos a dissimulação de uma invulnerabilidade.

Não me procuraria, mas continuaria talvez somando os passos. E eu a caminhar cada vez mais para além, com meu trabalho, com meus estudos. Nos fins de semestre, e principalmente no final de curso, as provas apertam na faculdade.

E eu continuei me indo para além de sua presença, mesmo depois daquela manhã de sábado na Praça da Liberdade. Por quê, se já havíamos conversado?! Se já o conhecia desde aquelas férias com minha família em Torres, nós dois no primeiro colegial? O encontro na praia, os olhares, falamos muito sobre tudo, menos sobre nós dois.

Fiquei feliz quando, um ano depois, sua família se mudou para Belo Horizonte. Ele me procurou, conseguiu vaga no mesmo colégio em que eu estudava. Tornou-se uma companhia amiga. Conversávamos sobre nossos planos. Sempre falava em ser um matemático, também pudera: era ótimo em Geometria. Fomos terminando o segundo grau e cada vez mais nos aproximando. Sempre quis tocá-lo e nunca consegui.

Na faculdade, cursos diferentes. Continuamos a difícil amizade, mais esparsa, mas intensa. Comecei a namorar uma garota do meu bairro. Mas não deu certo. Minha mãe continuou esperando pelo neto. Comecei a trabalhar. Ele também, tanto que quis sair de casa, mas ainda não tinha como, era difícil. Os dias continuavam transcorrendo, inflamáveis. Formamos.

Um dia conversamos e houve a explosão. Mas o que morre é o nosso pequeno mundo, mesmo sendo catastróficas as bombas. O planeta continua; continuam os cumprimentos nas ruas, e nas casas as festas de famílias com sorrisos nos lábios. Permanece a terra em torno do sol, e eu devo sorrir plenamente. Sorrir sem parar.

(Do livro Amores oblíquos)