Entrevista a Evaldo Balbino – Ana Bárbara Pedrosa



Literatura24 foi entrevistar Evaldo Balbino, autor de “Amores Oblíquos”, vencedor do Prémio Nacional Braskem/Academia de Letras da Bahia – Contos 2012.

Evaldo Balbino, escritor mineiro, é o vencedor do Prêmio Nacional Braskem/Academia de Letras da Bahia – Conto 2012, com o original “Amores oblíquos”.

O conto do escritor mineiro se destacou face aos outros 76 originais pela densidade psicológica das personagens.

O escritor receberá 10 mil reais e verá seu livro publicado nacionalmente. Haverá também uma apresentação do livro que contará com uma sessão de autógrafos.

Evaldo Balbino é Professor-Doutor de Língua Portuguesa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e tem artigos de crítica literária publicados em revistas acadêmicas especializadas.

De seguida, a entrevista feita por Literatura24:

O senhor foi elogiado pela densidade psicológica das personagens de “Amores Oblíquos”. Poderia falar um pouco sobre isso?

A densidade psicológica das personagens, percebida e elogiada pela comissão julgadora do prêmio, deve-se ao fato de minha escrita pautar-se realmente por uma linhagem introspectiva. Mais interessado nos mundos interiores das personagens, eu construo narradores (em primeira ou terceira pessoa) que ficam esquadrinhando o tempo todo esses mundos interiores. Os fatos, os gestos, os olhares, as realidades circundantes – tudo isso me é motivo para sondar os desejos humanos, suas vontades complexas e contraditórias, seus medos, seus amores, suas paixões. Tudo é pretexto para deflagrarem-se os pensamentos, para desatarem-se os labirintos do ser. Minha escrita, nesse sentido, é atravessada pela densidade dos seres e, consequentemente, da linguagem. Seres densos, porque não consigo ver com rasura as nossas constituições, a constituição do mundo. Linguagem densa, às vezes até meio barroca, porque não consigo utilizar outra linguagem que não seja esta. Para dizer dos labirintos que somos e que habitamos, somente uma linguagem labiríntica mesmo. Daí as frases cheias de meneios, as palavras carregadas de desejos e volteios, de olhares enganadores e enganados. Por tudo isso mesmo, julgo fazer uma escrita antes de tudo mais poética. Mesmo fazendo prosa, acabo fazendo mais poesia.

Quais são suas maiores influências literárias?

Difícil responder a esta pergunta, pois me considero leitor bem eclético. No entanto, vamos lá. Posso citar, pelo menos, os escritores que mexem muito comigo, mas vou pecar sempre pelas lacunas na citação. E, é claro, todo leitor está sempre em formação, sempre fazendo novas descobertas.

As minhas influências são: autores bíblicos (principalmente o profeta Isaías), Machado de Assis, Santo Agostinho, Clarice Lispector, Adélia Prado, Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Lúcio Cardoso, Lygia Fagundes Telles, Cecília Meireles, Manuel Bandeira, Graciliano Ramos, Rainer Maria Rilke, Fernando Pessoa, Virginia Woolf e Marcel Proust. Eu poderia citar outras influências, mas paro nessas indicações. Em todos esses autores, a densidade e a poeticidade da linguagem, a introspecção, a memória e o sagrado me fascinam.

Como é seu processo de escrita?

É um processo labiríntico, de pesquisa e de insistência. Meus poemas, minhas crônicas, meus contos e romances se fazem por fragmentos, por corredores sem fim. Escrevo e reescrevo sempre. Volto ao escrito com olhares oblíquos, desconfiados mas amantes, e buscando sempre garimpar a linguagem. Nada de fomalismos acadêmicos. Deus me livre disso! Tenho formação acadêmica (mestrado e doutorado em estudos literários), devo muito a essa formação, é claro, mas fazer literatura é escrever arte, e escrever transcende academicismos. Escrevo, então, sempre na busca da poesia, das palavras agrupadas de modo poético, de modo artístico.

Como se define enquanto autor?

Sempre é difícil a gente se definir. Aliás, qualquer definição é impraticável, não é mesmo? Como autor, posso apenas dizer que sou um ser que tenta compreender a si mesmo e aos outros, que busca entender o mundo e tudo o que nele existe, a vida existente e suposta. E que tenta fazer isso através das palavras. É como se escrever fosse um modo de se lutar contra a morte. E lutar contra a morte, neste caso, não é sonhar com a eternidade, mas sim lutar contra o silêncio do não-entendimento, da planura. Escrever, então, é produzir rumores para fugir da solidão e do silêncio. Para fugir do nada.

Como gosta de olhar para a sua produção literária?

Não sei dizer sobre isso. Acho que posso me repetir no que já disse e reafirmar: gosto de olhar para o que escrevo, para os livros que já publiquei, como sendo meus filhos e não sendo, como sendo discursos maiores do que eu, que me transcendem em diversos momentos, porque chegam a outras pessoas que também estão, no mundo, num processo de busca. A minha produção literária é busca, pela arte das palavras, de entender. Mesmo sabendo ser difícil esse processo, o do entendimento.

Autor: Ana Bárbara Pedrosa
Disponível em: http://literatura24.com/Default.aspx?tabid=430&novusact=viewarticle&articleid=443.
Acesso em 23 de mar. de 2013.